Dívida de cartão e rotativo: como parar a bola de neve
Como funciona o rotativo do cartão, o teto de juros da Lei 14.690/2023, quando vale parcelar a fatura e como trocar dívida cara por outra mais barata.
O caminho deste guia 8 paradas
O que é o rotativo
Quando a fatura chega e você paga menos que o total (mas pelo menos o mínimo), o banco financia a diferença até a próxima fatura. Esse financiamento é o crédito rotativo.
Ele é prático porque não exige pedido nem análise: acontece sozinho. O problema é o preço. Os juros do rotativo estão entre os mais altos do crédito para pessoa física. O Banco Central divulga as taxas médias de cada banco e o Custo Efetivo Total (CET), que soma juros, tarifas, impostos e encargos.
As regras que limitam o rotativo
Duas regras mudaram o jogo.
Prazo do rotativo. Por regra do Conselho Monetário Nacional, o saldo pode ficar no rotativo só até o vencimento da fatura seguinte. Se você não pagar tudo nesse momento, o banco precisa oferecer um parcelamento com condições mais vantajosas que as do rotativo. Isso evita que a dívida fique meses girando na taxa mais cara.
Teto de juros e encargos. A Lei 14.690/2023 passou a limitar a cobrança: a soma de juros e encargos do rotativo e do parcelamento da fatura não pode ultrapassar 100% do valor original da dívida. Na prática, uma dívida de R$ 1.000 no cartão não pode virar mais de R$ 2.000 só por causa desses encargos.
O teto ajuda, mas não torna a dívida barata. Pagar o dobro do que você gastou ainda é muito caro.
Exemplo: como a conta cresce
Imagine uma fatura de R$ 1.000. Você paga R$ 150 e os R$ 850 restantes entram no rotativo.
Suponha, só para o exemplo, uma taxa de 12% ao mês. Um mês depois, o saldo vira R$ 952 (R$ 850 x 1,12), antes ainda de somar as compras novas.
Agora compare com um parcelamento hipotético desses R$ 850 em 6 vezes, com juros de 6% ao mês. A parcela fica em cerca de R$ 172,86 e o total pago, em cerca de R$ 1.037,15. Os juros somam aproximadamente R$ 187.
Pelo teto da Lei 14.690/2023, juros e encargos sobre esses R$ 850 não poderiam passar de R$ 850, ou seja, o total ficaria limitado a R$ 1.700. O parcelamento do exemplo fica bem abaixo disso, mas ainda custa R$ 187 a mais do que pagar à vista.
As taxas reais do seu contrato aparecem na fatura e no aplicativo do banco. Use-as no lugar dos números do exemplo.
As saídas, da mais barata para a mais cara
Na maioria dos casos, a ordem é esta:
- Pagar a fatura inteira com dinheiro que você já tem, sem tirar do essencial.
- Trocar a dívida por um crédito mais barato, como um empréstimo pessoal ou consignado com CET menor que o do parcelamento da fatura. Só funciona se você parar de usar o cartão enquanto paga.
- Parcelar a fatura pelo banco, comparando o CET com o das outras opções.
- Ficar no rotativo, que é a pior opção e, pelas regras, não pode durar além da fatura seguinte.
Antes de trocar uma dívida por outra, compare o CET de cada proposta, não só a parcela. O guia de juros abusivos mostra como comparar a sua taxa com a média do mercado, e o de empréstimo para negativado explica os riscos de pegar crédito com o nome sujo.
Se a fatura já atrasou
Se você não pagou nem o mínimo, a dívida entra em atraso, com multa e juros de mora, e pode ser negativada. Nesse caso, o caminho é negociar:
- peça ao banco, pelos canais oficiais, uma proposta de acordo com o valor total e o número de parcelas;
- compare com ofertas em plataformas dos birôs de crédito e no Consumidor.gov.br;
- calcule quanto cabe no seu mês antes de aceitar, como mostra como negociar dívida atrasada.
Dívida de cartão antiga costuma ter desconto maior em acordo. O guia quitar à vista ou parcelar o acordo ajuda a decidir entre as propostas.
Como não voltar para o rotativo
Sair do rotativo e continuar usando o cartão do mesmo jeito leva de volta ao mesmo lugar. O parcelamento da fatura também ocupa o limite e soma uma parcela fixa às compras novas, então a fatura seguinte pode vir maior do que você espera. Algumas medidas práticas:
- reduza o limite do cartão no aplicativo para um valor que você paga inteiro todo mês;
- tire o cartão das lojas virtuais e dos aplicativos de compra enquanto paga o acordo;
- anote as parcelas já assumidas, porque elas comem o limite das próximas faturas;
- monte uma reserva pequena para imprevistos, como explica reserva para não voltar a dever.
Se a cobrança parecer errada
Confira na fatura se os juros e encargos respeitam o teto da lei e se não há tarifa que você não contratou. O Código de Defesa do Consumidor garante informação clara sobre o preço do crédito. Se encontrar erro, reclame primeiro no SAC e na ouvidoria do banco; sem solução, use o Consumidor.gov.br ou o Banco Central. O caminho completo está em onde reclamar de banco e financeira. Em dúvida sobre o seu contrato, o Procon e a Defensoria Pública orientam de graça.
Próximos passos
- Abra a última fatura e anote o saldo, a taxa do rotativo e o CET informados.
- Peça ao banco a simulação do parcelamento da fatura com o CET.
- Compare com pelo menos uma alternativa de crédito mais barato, olhando o total pago.
- Reduza o limite do cartão para um valor que você paga inteiro.
- Se a fatura já atrasou, peça proposta de acordo por escrito antes de pagar.
Dúvidas de quem está no vermelho
Pagar o mínimo da fatura é inadimplência?
Não. Pagar o mínimo evita o atraso, mas o saldo restante entra no rotativo, que costuma ter uma das taxas mais altas do mercado. É uma saída de curtíssimo prazo, não um jeito de pagar a dívida.
Quanto de juros o banco pode cobrar no rotativo?
A taxa varia por banco e muda com o tempo; o Banco Central divulga as taxas médias por instituição. Pela Lei 14.690/2023, a soma de juros e encargos do rotativo e do parcelamento da fatura não pode passar de 100% do valor original da dívida.
Posso pedir para tirar a dívida do cartão do rotativo?
Você pode pedir ao banco uma proposta de parcelamento ou de renegociação, e comparar com outras opções de crédito mais baratas. Peça sempre o Custo Efetivo Total antes de aceitar.
Cancelar o cartão acaba com a dívida?
Não. Cancelar evita gastos novos, mas o saldo devedor continua e precisa ser pago ou negociado.
Onde conferir
As regras deste guia saíram destas fontes. Abra antes de decidir: prazo, taxa e programa mudam.
Escrevemos a partir de lei, regra do Banco Central e orientação de órgãos de defesa do consumidor, sem vender produto financeiro. Achou um erro ou uma regra que mudou? Avise a redação; corrigimos e anotamos a data. Próxima revisão deste guia: 22 de abril de 2027. Veja como checamos.
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