Qual dívida pagar primeiro: o critério que evita prejuízo maior
Tem várias dívidas e pouco dinheiro? Veja a ordem que protege moradia, luz e bens em garantia e depois ataca os juros mais caros, com exemplo de conta.
O caminho deste guia 9 paradas
Por que a ordem importa
Toda dívida atrasada traz algum custo, mas o tamanho do estrago muda muito. Uma fatura de cartão em atraso gera juros, multa e negativação. Um aluguel atrasado pode virar ação de despejo. Uma conta de luz sem pagamento pode levar ao corte do fornecimento. Um carro financiado com parcelas em aberto pode ser retomado pelo banco.
Por isso o critério não é "a que cobra mais forte" nem "a que tem maior desconto". O critério é: qual atraso causa o prejuízo maior e mais difícil de desfazer. Para aplicar essa regra, você precisa da sua lista de dívidas completa, com a coluna de consequência preenchida.
Primeiro grupo: o que mantém a casa de pé
Comece pelas contas que, se atrasarem, tiram algo essencial da sua rotina:
- Moradia: aluguel, prestação da casa própria e condomínio.
- Serviços essenciais: água, luz e gás. As regras de cada setor exigem aviso antes do corte, mas o corte pode acontecer.
- Alimentação e remédios: não são dívida, mas o dinheiro deles não deve ir para acordo nenhum.
- Pensão alimentícia: o atraso tem consequências legais sérias e não entra em negociação de feirão.
Se uma dessas já está atrasada, negocie com a própria empresa ou o locador antes de mexer em qualquer outra dívida.
Segundo grupo: dívidas com bem em garantia
Financiamento de veículo e de imóvel costuma ter o próprio bem como garantia. Em caso de atraso prolongado, o credor pode pedir a retomada. Perder o carro que você usa para trabalhar pode reduzir a sua renda e piorar todo o resto.
Se a parcela não cabe mais, procure o banco cedo e peça proposta de renegociação ou de prazo maior, sempre por escrito. Antes de assinar, compare o custo total.
Terceiro grupo: os juros mais altos
Com o essencial garantido, olhe a taxa de juros de cada dívida. Cartão de crédito no rotativo e cheque especial costumam estar entre as modalidades mais caras do mercado, segundo as taxas médias que o Banco Central divulga. Cada mês de atraso nelas aumenta o saldo mais do que em um crediário ou em um empréstimo consignado.
O guia sobre dívida de cartão e rotativo explica como sair dessa modalidade. Já o de juros abusivos mostra como comparar a taxa do seu contrato com a média.
Exemplo com três dívidas
Imagine que, depois de pagar as contas da casa, sobrem R$ 400 por mês. A pessoa tem três dívidas (números hipotéticos e simplificados):
| Dívida | Saldo | Juros ao mês | Juros de um mês |
|---|---|---|---|
| Cartão no rotativo | R$ 2.000 | 10% | R$ 200 |
| Empréstimo pessoal | R$ 3.000 | 4% | R$ 120 |
| Crediário de loja | R$ 1.000 | 2% | R$ 20 |
A conta mostra que o cartão, mesmo com saldo menor que o empréstimo, cresce R$ 200 por mês. Se a pessoa usar os R$ 400 para atacar o cartão (ou para fechar um acordo que tire a dívida do rotativo), deixa de perder mais dinheiro com juros do que se começasse pelo crediário. Na vida real, a taxa e a cobrança mudam conforme o contrato, então confira os números no seu extrato.
Quarto grupo: dívidas paradas ou antigas
Dívidas antigas que já foram para empresas de cobrança muitas vezes têm o valor congelado ou recebem propostas com desconto grande. Elas podem esperar até que o essencial e as caras estejam controlados.
Dívida com mais de cinco anos merece atenção especial: a cobrança judicial pode ter prescrito e o registro já pode ter saído dos birôs. O guia sobre dívida prescrita explica o que muda e o que continua.
Dois métodos para organizar o resto
Depois do essencial, há dois jeitos conhecidos de ordenar as dívidas restantes:
- Juros maiores primeiro: paga-se o mínimo combinado em todas e o restante vai para a mais cara. É o que gasta menos dinheiro no total.
- Saldo menor primeiro: quita-se a menor dívida antes, para ver resultado rápido e ganhar fôlego. Custa um pouco mais em juros, mas ajuda quem desanima com facilidade.
Os dois funcionam se você não parar no meio. O que não funciona é fechar vários acordos ao mesmo tempo e deixar de pagar um deles: o acordo quebrado costuma perder o desconto e o nome pode voltar ao cadastro de inadimplentes.
O que fazer com as dívidas que vão esperar
Deixar uma dívida para depois não é o mesmo que ignorá-la. Responda às cartas e mensagens, confira se o valor cobrado bate com a sua lista e diga ao credor quando pretende retomar a conversa. Não assine confissão de dívida nem aceite proposta só para encerrar a ligação. Se a cobrança passar do limite, com ameaça ou exposição, o guia sobre cobrança abusiva mostra onde registrar.
Quando nem o essencial cabe
Se, mesmo cortando gastos, a renda não cobre as contas da casa e as dívidas, você pode estar em situação de superendividamento. A Lei 14.181/2021 incluiu no Código de Defesa do Consumidor um processo de repactuação com todos os credores ao mesmo tempo, preservando o mínimo existencial, que é a parte da renda reservada para viver. O passo a passo está em superendividamento: como pedir. Cada situação tem detalhes próprios, e o Procon ou a Defensoria Pública podem orientar o seu caso.
Próximos passos
- Marque na sua lista de dívidas quais atrasos causam corte, despejo ou perda de bem.
- Negocie primeiro essas, direto com a empresa ou o locador, e guarde a proposta por escrito.
- Anote a taxa de juros mensal de cada dívida restante e ordene da maior para a menor.
- Escolha um dos dois métodos e use só o valor que sobra no seu orçamento.
- Antes de aceitar desconto de feirão, confirme que a parcela não tira dinheiro do essencial.
Dúvidas de quem está no vermelho
Devo pagar primeiro a dívida mais antiga ou a mais cara?
Nenhuma das duas vem primeiro. Antes, garanta o que mantém a casa funcionando, como aluguel, luz e água, e os contratos com bem em garantia. Depois disso, a dívida com juros mais altos costuma ser a que mais cresce e merece atenção antes da mais antiga.
Vale a pena deixar a conta de luz atrasar para pagar o cartão?
Em geral não. Atraso em conta de consumo pode levar ao corte do serviço depois do aviso previsto nas regras do setor, e religar custa tempo e dinheiro. O cartão atrasado gera juros e negativação, mas não tira um serviço essencial da sua casa.
E se o desconto do feirão for muito bom em uma dívida menos urgente?
Desconto alto é tentador, mas só vale se o pagamento não deixar faltar o essencial nem atrasar outra dívida mais grave. Se o dinheiro do acordo vier do aluguel do mês, o desconto sai caro. Campanhas de negociação podem voltar a acontecer, e a dívida continua negociável fora delas.
O que faço se nem as dívidas essenciais cabem na renda?
Nesse caso, a Lei do Superendividamento prevê a repactuação das dívidas de consumo com todos os credores, preservando o mínimo existencial. Procure o Procon, a Defensoria Pública ou o centro de conciliação do Tribunal de Justiça do seu estado.
Onde conferir
As regras deste guia saíram destas fontes. Abra antes de decidir: prazo, taxa e programa mudam.
Escrevemos a partir de lei, regra do Banco Central e orientação de órgãos de defesa do consumidor, sem vender produto financeiro. Achou um erro ou uma regra que mudou? Avise a redação; corrigimos e anotamos a data. Próxima revisão deste guia: 22 de abril de 2027. Veja como checamos.
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